domingo, 2 de dezembro de 2018

Biodiversidade da amazônia - Brasil Escola (Painel do Coronel Paim_

terça-feira, 11 de julho de 2017

Perda da biodiversidade chegou a ‘nível perigoso’, diz estudo.

Em 58% da superfície terrestre, sobrevivência de ecossistemas está ameaçada, segundo análise publicada na 'Science'


Rinoceronte com seu filhote no Parque de Serengeti Hodenhagen, Alemanha


Em 58% da superfície terrestre, a perda da biodiversidade está abaixo do “limite seguro”, afirma estudo publicado na edição desta sexta-feira da revista Science. De acordo com levantamento feito por uma equipe internacional de cientistas, a queda da biodiversidade ameaça os ecossistemas do planeta, colocando em risco processos essenciais à sobrevivência humana, como a polinização das plantas, a decomposição de resíduos e a regulação do ciclo de carbono. É a primeira vez que os efeitos da perda da biodiversidade são quantificados de forma tão detalhada – e o resultado, de acordo com os cientistas, é preocupante.
“O nível de perda da biodiversidade é substancial o suficiente para questionar a capacidade dos ecossistemas de suportar as sociedades humanas”, afirmam os pesquisadores no estudo.
Para chegar a esse resultado, os cientistas liderados por Tim Newbold, da University College London, na Inglaterra, analisaram mais de 2,3 milhões de registros de 39.100 espécies de 18.600 regiões do globo, de várias épocas. Os dados revelaram que a biodiversidade, em todo o planeta, caiu para 84,6% (o total, 100%, seria a taxa antes da ocupação humana). Se considerado o surgimento de novas espécies, a porcentagem aumenta para 88%. O cálculo é baseado na proposta de que um ecossistema deve preservar até 90% da biodiversidade para que seu funcionamento seja garantido – assim, perdas maiores que 10% estariam além do “limite seguro”. Outros estudos, contudo, aceitam a perdas de até 30%.
Segundo o novo estudo, nove dos quatorze biomas da Terra ultrapassaram o “limite seguro”. Os mais comprometidos são as pradarias (regiões onde costuma ser cultivada a maior parte dos produtos agrícolas) e os menos afetados são a tundra e as florestas boreais. Nos ecossistemas mais danificados , a reprodução e crescimento de seres vivos, bem como a produção de nutrientes é incerta.
“Sabemos que, em várias partes do mundo nos aproximamos de uma situação na qual uma intervenção humana poderia ser necessária para manter as funções do ecossistema”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Perdas

Diversos estudos têm apontado para altas taxas de extinção de espécies no planeta. Uma análise publicada no ano passado por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, afirma que a Terra pode estar à beira da próxima sexta extinção em massa (a última foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros desapareceram da superfície) e uma pesquisa da revista Science, de 2014, revelou que, nos últimos 500 anos, 322 espécies desapareceram.
Apesar de ser o mais detalhado estudo sobre a biodiversidade apresentado até o momento, o método empregado pelos cientistas tem limitações. A pesquisa é baseada em análises sobre como a superfície mudou e quantas espécies desapareceram – mas ainda há dúvidas a respeito de qual seria o “limite seguro” para as perdas. Um artigo do cientista Tom Oliver, da Universidade de Reading, na Inglaterra, publicado junto com a nova análise, discute esse parâmetro. O autor afirma que, apesar das incertezas, se não houver qualquer ação para preservar a biodiversidade, teremos um “futuro com custos substanciais para o bem estar humano”.


Postado por: Giovana M. de Araújo

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Áreas protegidas ou áreas que ninguém quer?

Por Rafael Loyola


Não adianta proteger apenas áreas que foram desprezadas pela agricultura e outras atividades econômicas. Foto: Creative Commons

O Brasil tem uma das maiores redes de áreas protegidas do mundo, com Unidades de Conservaçãoestabelecidas em diversas categorias e esferas de gestão. Toda essa proteção estende-se por cerca de 17% do território brasileiro e tem por finalidade proteger o imenso patrimônio natural do país. Intuitivamente, toda e qualquer nova unidade de conservação criada significa mais um ponto no placar dos conservacionistas. Mas, se não for bem assim?
Globalmente, e no Brasil não parece ser diferente, áreas destinadas à conservação têm uma natureza residual. Por residual, me refiro literalmente ao que sobrou e não pôde ser utilizado para agricultura, pecuária, mineração, pesca e assim por diante. Alguns estudos científicos já demostraram que áreas protegidas possuem solos inférteis, terrenos muito acidentados e pouca (ou nenhuma) vocação para o uso econômico. Em outros casos, os limites dos parques coincidem perfeitamente com os limites de áreas de pesca de arrasto ou de espinhel, evidenciando que os parques tiveram seus contornos ajustados para permitir a pesca em seu entorno. Há ainda áreas protegidas em locais remotos, como parques marinhos enormes, mas bem distantes da plataforma continental,  onde está a maior e mais ameaçada biodiversidade marinha; ou em áreas inacessíveis em florestas tropicais, e portanto, ainda sem uso econômico.
Mas isso é um problema? Muita gente acha que ter unidades de conservação residuais no Brasil não é um problema, posto que cada vez temos mais áreas sendo protegidas. Mas essa é uma maneira simplista de medir o avanço que estamos fazendo com a conservação da natureza. Pensar apenas na área total sob proteção faria sentido desde que a criação de uma determinada unidade de conservação impedisse a transformação da área em outra coisa; por exemplo, uma monocultura de soja. Além disso, seria preciso garantir que dentro da unidade de conservação a biodiversidade que mais precisa de proteção estaria de fato protegida. E quem precisa de mais proteção são espécies e ecossistemas ameaçados por desmatamento, queimadas, mudanças climáticas, mineração, exploração de petróleo e gás, sobrepesca, etc.
"conservamos locais que, analisando friamente, talvez nem precisassem de proteção, uma vez que não seriam convertidos em qualquer outra coisa. Resultado: locais com baixa vulnerabilidade são protegidos e locais que serão riscados do mapa para sempre são liberados para uso."
Eu sei... pode soar um pouco estranho, mas a chave para entender a ideia é fazer uma pergunta simples: o que teria acontecido com essa área (e, consequentemente, com a biodiversidade lá existente) caso ela não houvesse sido protegida? Se sua resposta for: “Nada! Ela estaria do mesmo jeito”, então essa proteção não deveria ser efusivamente comemorada como mais um gol no placar da conservação. Em muitos casos – mais do que você imagina – essas áreas estariam muito bem obrigado daqui a 20-30 anos caso não houvessem sido protegidas; pensem no interior da floresta amazônica!
Veja que em ambas as situações, não se trata apenas de proteger o que está dentro das unidades de conservação, mas de fazer a diferença, salvando o que seria perdido, caso essas unidades não houvessem sido criadas. Note, também, que não estou falando de números e estatísticas. Para quem pensa em números ou área total protegida, qualquer nova unidade de conservação é lucro. Estou falando de “impacto positivo”, de fazer a diferença com ações de conservação.
Em áreas como a medicina, educação e desenvolvimento social, esse impacto positivo é formalmente definido como “o que teria acontecido caso uma determinada intervenção não houvesse sido implementada ou uma intervenção diferente houvesse sido feita”. Em conservação esse impacto positivo ainda é raramente estimado, mas isso vem mudando. Um exemplo é que no ano passado a conceituada revista cientifica inglesa “Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences” publicou um volume especial sobre avaliação do impacto positivo de ações de conservação no mundo.
O fato é que, com recursos escassos destinados à conservação e muita dificuldade política para implementar ações em locais com vocação para outros usos, principalmente atividades econômicas, corre-se o risco de se optar pelo caminho mais fácil. Esse caminho é o de proteger áreas residuais, que não foram usadas para outros fins e, portanto, poderiam ser transformadas em unidades de conservação. Pior, a biodiversidade perdida em áreas não protegidas normalmente só ocorre ali, onde nunca mais serão encontradas.
A consequência de não se avaliar o impacto positivo da criação de áreas protegidas no mundo e nas unidades de conservação no Brasil é clara: embora tenhamos dobrado a área total protegida no planeta nos últimos 10 anos, nunca tivemos tantas espécies ameaçadas de extinção sem proteção alguma. Isso parece um contrasenso. Parece! Mas isso é esperado porque não direcionamos, necessariamente, nossos esforços para a proteção de ambientes e espécies que estão sumindo devido à exploração humana. Ao contrário, conservamos locais que, analisando friamente, talvez nem precisassem de proteção, uma vez que não seriam convertidos em qualquer outra coisa. Resultado: locais com baixa vulnerabilidade são protegidos e locais que serão riscados do mapa para sempre são liberados para uso.
Enquanto nossos objetivos conservacionistas forem o de aumentar a área total protegida do país e não o de proteger aquilo que pode desaparecer para sempre, o placar continuará a favor da extinção e contra a biodiversidade. O assunto é polêmico, sem dúvida. Espero retomá-lo em outras colunas, pois há muito o que conversar. Ainda assim, está na hora de perguntarmos “o que aconteceria com essas áreas caso elas não houvessem sido convertidas em unidades de conservação?” ou, de maneira mais simples, “nossas unidades de conservação fazem a diferença?”

Postado Por: Carlos Paim

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O velho e o mar: tubarão-da-groenlândia chega a 400 anos

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O intrigante tubarão-da-groenlândia chega a medir mais de 5 metros. E demora 150 anos para atingir a maturidade sexual. Foto: Julius Nielsen.
O intrigante tubarão-da-groenlândia chega a medir mais de 5 metros. E demora 150 anos para atingir a maturidade sexual. Foto: Julius Nielsen.


Manaus, AM -- Um dos maiores e menos conhecidos peixes do mundo, o tubarão-da-groenlândia, acaba de receber o título de vertebrado com maior longevidade. Esses grandes predadores que nadam nas frias águas do Hemisfério Norte vivem em média 272 anos, e são capazes de chegar à casa dos 400, de acordo com um estudo realizado por biólogos marinhos dinamarqueses. O artigo é destaque na edição da revista Science de 12 de agosto.
Os cientistas já sabiam que esses tubarões cresciam muito devagar, mas ainda não haviam conseguido calcular a idade deles. Técnicas já conhecidas, como o uso de ossos do ouvido de peixes ou a calcificação de tecidos, não funcionavam nesta espécie. O mistério começou a ser revelado a partir da análise do isótopos de carbono presentes no cristalino dos olhos de tubarões encontrados mortos.
A partir do início dos anos 1960, conforme relata a revista Science, houve uma infiltração de material radioativo nos oceanos, resultado dos testes nucleares realizados em meados da década anterior. Com essa informação, os biólogos marinhos dinamarqueses conseguiram descobrir quais tubarões haviam nascido após aquele período. Com esses dados e o tamanho já conhecido de filhotes recém-nascidos, 42 centímetros, puderam traçar uma curva de crescimento para a espécie.
“Assim como acontece com outros vertebrados, os cristalinos consistem de um único tecido metabolicamente inativo”, explica o autor principal do artigo, Julius Nielsen, estudante de pós-graduação. “Uma vez que o centro do cristalino não se altera a partir do momento de nascimento, isso permite à composição química do tecido revelar a idade do tubarão”, completa.
Os maiores tubarões encontrados, com 4,93 metros e 5,02 metros de comprimento, tiveram a idade estimada em 335 e 392 anos, respectivamente. Registros anteriores indicam que as fêmeas da espécie atingem a maturidade sexual por volta dos 4 metros, o que corresponde a uma idade aproximada de 156 anos, segundo os autores do estudo.
A medalha de prata de longevidade entre os vertebrados também fica nos mares gelados do Norte, mas com um mamífero, a baleia-da-groenlândia (Balaena mysticetus), que tem 211 anos de expectativa de vida. Mas nenhum vertebrado supera a Arctica islandica, um molusco bivalve, capaz de viver mais de 500 anos protegido pelas suas conchas. E como ele também é encontrado nos mares do Norte do planeta, não é exagero concluir que o segredo pode estar na água gelada do Oceano Ártico.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Lei para exploração da biodiversidade é discutida no programa ‘Entre Vistas’
   
28/07/2016, 11h33 - ATUALIZADO EM 28/07/2016, 13h46
O Brasil é detentor da maior biodiversidade do planeta. Essa riqueza pode gerar renda para comunidades tradicionais. O Marco Legal da Biodiversidade (Lei 13.123/2015) determina como repartir os benefícios do comércio de produtos oriundos dessa atividade. Para Nurit Bensusan, do Instituto Socioambiental, a norma é uma afronta aos detentores de conhecimentos tradicionais. Já Rodrigo Justus de Brito, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, considera que a lei atende ao setor produtivo e trouxe mecanismos para facilitar a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico. Os especialistas falam sobre o tema no programa Entre Vistas da TV Senado.

Click no link e Assista:

http://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2016/07/lei-para-exploracao-da-biodiversidade-e-discutida-no-programa-2018entre-vistas2019

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Perda de biodiversidade ameaça ecossistemas do planeta, diz estudo

Em 58% da superfície terrestre há perda substancial dos ecossistemas.


Estudo foi publicado na revista "Science" nesta quinta.

Da AFP

O rinoceronte-indiano tem como habitat natural as florestas e pradarias do Nepal e da Índia. Estimativa da organização ambiental WWF é que existam aproximadamente 2.575 exemplares pelo mundo (Foto: Markus Schreiber/AP)Pradarias, savanas e tundras são ecossistemas mais afetados (Foto: Markus Schreiber/AP)













A dimensão da perda de biodiversidade no mundo todo ameaça o funcionamento dos ecossistemas da Terra e inclusive a sobrevivência dos seres humanos, segundo um estudo publicado na quinta-feira (14) na revista científica americana "Science".
Em 58% da superfície terrestre, onde vive 71% da população mundial, "o nível de perda de biodiversidade é substancial o suficiente para questionar a capacidade dos ecossistemas de suportar as sociedades humanas", alerta o estudo.
"É a primeira vez que quantificamos os efeitos da perda de biodiversidade a nível planetário de forma tão detalhada que agora podemos dizer que esta perda ultrapassou os limites considerados seguros pelos ecologistas", explica o líder da pesquisa, Tim Newbold, da University College London.

Nestas zonas, é cada vez mais incerta a possibilidade de assegurar funções essenciais dos ecossistemas como a reprodução e crescimento de seres vivos e a manutenção de ciclos de produção de nutrientes.
Segundo os pesquisadores, as pradarias, savanas e a tundra são os ecossistemas mais afetados, seguidos por diferentes tipos de florestas e outras regiões selváticas.
"Sabemos que as perdas de biodiversidade afetam o funcionamento dos ecossistemas, mas o processo ainda não está totalmente claro", acrescentam os pesquisadores.
"O que sim sabemos é que em várias partes do mundo nos aproximamos de uma situação na qual uma intervenção humana poderia ser necessária para manter as funções do ecossistema", afirmam.
"A utilização dos solos já levou a biodiversidade até os limites do que poderia ser considerado não arriscado", ressaltou o professor Andy Purvis, do Museu de História Natural de Londres, um dos coautores do estudo.
Para o estudo, foram analisados 2,38 milhões de relatórios sobre 39.123 espécies e 18.659 lugares, dados fornecidos por centenas de pesquisadores de várias partes do mundo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O maior sucesso biológico de todos os tempos

Por Marcos Rodrigues
Avestruz da somália. Foto: Wikipedia
Avestruz da somália. Foto: Wikipedia
Todo mundo sabe o que é uma ave, ou um pássaro. O senso comum diz que aves ou pássaros são os animais que possuem penas revestindo o corpo. Assim, o bizarro pinguim (que na verdade é um grupo de 17 espécies e não apenas uma) nada mais é do que uma ave. Sim, aquele animal de ‘sangue quente’ que vaga pelos gélidos confins do continente antártico e ilhas adjacentes; aquele animal que caminha toscamente sobre o gelo; aquele animal que nada como um raio e mergulha em águas geladas em busca de peixes não passa de uma ave.
A avestruz, aquele animal bípede e grandalhão, que chega a pesar 140 quilos e que caminha pelas planícies quentes e secas das savanas africanas também é uma ave, pois seu corpo, assim como o dos pinguins, é todo revestido por penas.
O sabiá-do-barranco. Foto: D. Sanches/WikipediaAquele sabiá que gorjeia sobre as palmeiras dos nossos jardins tropicais, que não passa de uma avezinha com menos de 30 gramas e 15 centímetros de tamanho (do bico à cauda) também é uma ave (muitos o chamam exclusivamente de pássaro, mas considero aqui estas palavras como sinônimas).
O sabiá-do-barranco. Foto: D. Sanches/Wikipedia
Agora pense numa galinha. Todo mundo sabe o que é uma galinha. Ela está na nossa dieta há mais de 3000 anos. Dez entre dez brasileiros comem galinha pelo menos uma vez por semana. Galinha assada, ao molho pardo, à caçarola, na brasa, frita em pedacinhos (ironicamente “à passarinho”), coxinha de galinha, caldo de galinha e mais uma infinidade de formas, jeitos e receitas para se comer galinha. Pois saiba, a galinha, quando viva, tem boa parte do seu corpo recoberto por penas e, portanto, é uma ave.
Mas não são só as penas que tornam um animal uma ave, mas este assunto veremos mais a frente, à luz da ciência e não à luz do senso comum.
Um chá no Saara
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Abetarda africana (Chlamydotis undulata). Foto: Wikipedia
Você pode encontrar uma ave em qualquer lugar deste planeta. Mesmo no deserto do Saara, a região mais quente e árida da Terra, quando estiver caminhando junto aos tuaregs, não se espante se lá avistar uma abetarda africana andando e gritando pelas dunas secas. Abetardas são aves altamente terrestres de grande porte, pernas e pescoços longos que lembram uma seriema (mas não são parentes destas). As abetardas são aves adaptadas aos ambientes mais áridos do globo e conseguem sobreviver muito bem sem beber água por períodos de tempo muito longos. Como elas vivem sem água?
Sabemos que o metabolismo das proteínas produz amônia, que é um composto muito tóxico, mas é solúvel na água e difunde-se rapidamente. Abetardas, como qualquer ave, comem proteínas eventualmente e assim precisam eliminar a amônia. Os mamíferos, como nós, conseguem converter a amônia tóxica em ureia, que é uma substância menos tóxica. A ureia pode ser acumulada no corpo e liberada em uma solução concentrada na urina, conservando água desta maneira. Para isso os mamíferos desenvolveram um rim que é extraordinariamente eficiente em produzir urina concentrada. As aves, no entanto convertem a amônia e outros compostos nitrogenados em ácido úrico. Diferentemente da amônia e da ureia, o ácido úrico é insolúvel e combina-se prontamente com íons sódio e potássio para precipitar como urato de sódio ou potássio. Assim, as aves desenvolveram a capacidade de excretar ácido úrico e recuperar a água que é liberada durante a formação do precipitado1.
A baixa solubilidade do ácido úrico se torna vantajosa, porque o ácido úrico precipita quando entra na cloaca (região final do trato digestório das aves). O ácido úrico dissolvido se combina com os íons na urina e se precipita como uma massa de cor clara que inclui sais de sódio, potássio, e sais de amônia de ácido úrico, assim como outros íons. (É o cocô de passarinho, também conhecido por guano, um esterco com propriedade incrivelmente fertilizadora do solo). Quando o ácido úrico e os íons se precipitam dessa solução, a urina se torna menos concentrada e a água é reabsorvida no sangue através da parede da cloaca. A excreção nitrogenada de ácido úrico é mais econômica quanto à água do que a excreção da ureia, porque a água usada para produzir urina é reabsorvida e reutilizada. Assim, as aves são chamadas de animais uricotélicos, pois excretam resíduos nitrogenados principalmente na forma de ácido úrico1. É desta maneira que muitas espécies de aves conseguem viver em ambientes áridos como os desertos. Não se esqueça de procurar pelas abetardas quando estiver passeando pelo Saara.
Visita ao continente gelado
O pinguim imperador (Aptenodytes forsteri) curtindo o inverno na Antártica. Foto: Wikipedia
O pinguim imperador (Aptenodytes forsteri) curtindo o inverno na Antártica. Foto: Wikipedia
Depois de caminhar numa caravana de camelos cruzando o Saara, nada mais refrescante do que uma visita a Antártica, o continente gelado. Ali as temperaturas são as mais frias, o ar é o mais seco e o vento é o mais uivante de todo o planeta Terra. As temperaturas no inverno podem alcançar 89 graus Celsius negativos. Não há população permanente de seres humanos nesta área de mais de 14 milhões de metros quadrados (o dobro da Austrália). Neste passeio pelo continente gelado o que encontraremos serão pinguins. As dezessete espécies de pinguins vivem nestas condições hostis de clima a maior parte do ano. O pinguim imperador é a única espécie que consegue se reproduzir em pleno inverno. Como eles conseguem sobreviver é uma questão importante na biologia.
A dieta do pinguim imperador consiste principalmente de peixes, crustáceos e cefalópodes (lulas). Na caça, os indivíduos podem permanecer submersos por até 18 minutos e mergulhar a uma singela profundidade de 535 metros. Eles apresentam diversas adaptações para empreender tal façanha, como uma hemoglobina estruturada para permitir que funcione em níveis de oxigênio baixos. Os ossos sólidos e pesados lhes permitem uma redução do barotrauma (danos físicos causados aos tecidos do corpo por diferenças de pressão do ar ou da água). Além disso, os pinguins têm a capacidade de reduzir seu metabolismo e interromper as funções não essenciais de alguns órgãos. As penas do pinguim imperador proporcionam de 80 a 90% do seu isolamento térmico. Eles ainda possuem uma camada subdérmica de gordura que pode chegar a ter três centímetros de espessura. As suas penas são rígidas e curtas e formam um conjunto denso ao longo de toda a superfície da pele. Cerca de 100 penas cobrem 6,5 cm², o que significa que é a espécie de ave com maior densidade de penas no corpo. Os músculos permitem que as penas permaneçam eretas quando as aves estão em terra, reduzindo a perda de calor ao fixarem uma camada de ar junto à pele. Inversamente, a plumagem ajusta-se junto à pele quando a ave está na água, provocando a impermeabilização da pele e da camada de plumagem adjacente. A limpeza das penas é vital para garantir o isolamento térmico e para manter a plumagem oleosa e repelente de água2.
O pinguim imperador tem ainda a capacidade de fazer termorregulação (manter constante a sua temperatura corporal) sem alterar o seu metabolismo, num intervalo grande de temperaturas (entre –10 e 20 °C). Abaixo de –10, a sua taxa metabólica aumenta significativamente, apesar de o indivíduo poder ainda manter a sua temperatura corporal entre os 37,6 e os 38,0 °C até em gélidos 47 graus negativos de temperatura ambiente. Para aumentarem o metabolismo, podem fazer um conjunto de movimentos: nadar, andar e tremer. Um quarto processo envolve a quebra metabólica de gorduras por enzimas, ação induzida pelo hormônio glucagon2. Quer mais?
É melhor deixarmos a Antártica. Está muito gelada, não é mesmo? Para isso temos que pegar um navio e rumarmos norte, seja pelo Oceano Atlântico, Pacífico ou Índico. O que veremos então? Água. “Água, água, tanta água//e nem uma gota para beber”. Se o navio em que estivermos não tiver uma provisão de água doce suficiente, morreremos todos de sede.
Mar sem fim. Foto: Wikipedia
Mar sem fim. Foto: Wikipedia
Ó mar salgado, quanto do teu sal //São lágrimas de Portugal!
Mas lá em alto mar, milhas e milhas distante de qualquer pedaço de terra plainam suavemente os albatrozes. Os albatrozes pertencem ao grupo chamado de Procellariiformes, que é uma ordem de aves marinhas que compreende quatro famílias: os albatrozes, os petréis, as pardelas e os bobos. Essas aves são quase que exclusivamente pelágicas (vivendo e alimentando-se em mar aberto) e se distribuem por todos os oceanos do mundo. Essas aves vagueiam em busca de alimento durante todo o ano e só pousam em terra firme (ilhas oceânicas isoladas) para se reproduzir. Alimentam-se exclusivamente de lulas, peixes e crustáceos. Como vimos acima, o metabolismo dessa proteína ingerida produzirá amônia. Vimos também que as aves conseguem economizar água do corpo excretando ácido úrico. Mas como excretar todo o sal ingerido após a digestão desses animais marinhos?
Um albatroz. Foto: Fabio Olmos
Um albatroz. Foto: Fabio Olmos
A solução está nas glândulas de excreção de sal. Tais glândulas proporcionam um caminho extrarrenal que excreta o sal com menos água do que a urina. Em muitas aves, as glândulas nasais laterais se especializaram para a excreção de sal. As glândulas são situadas ao redor da órbita, usualmente sobre os olhos. Aves marinhas (pelicanos, albatrozes, pinguins) possuem glândulas de sal bem desenvolvidas, assim como muitas aves de água doce (patos, aves lacustres em geral, mergulhão), aves de praia (maçaricos e batuíras), cegonhas, flamingos, aves carnívoras (gaviões, águias) e aves de savana (avestruz). As glândulas de sal tem uma microestrutura semelhante a um rim e usam um sistema de fluxo de sangue em contracorrente para remover os íons de sais da corrente sanguínea. Estas glândulas são lobadas contendo muitos túbulos secretores que irradiam para fora a partir de um canal de excreção no centro. Túbulos secretores são revestidos com uma camada única de células epiteliais. O diâmetro e comprimento destes túbulos variam dependendo da quantidade de sal que é geralmente absorvido pelas espécies que as possuem. Assim, essas glândulas de sal mantêm o equilíbrio de sal do corpo do indivíduo e permite aos albatrozes a beber água do mar1.
Voando na ‘zona da morte’
O monte Everest. Foto: Wikipedia
O monte Everest. Foto: Wikipedia
Chega de horizontes infinitos, oceanos monocromáticos, planícies enfadonhas, desertos inimigos. É hora de embarcarmos para as montanhas, a mais alta delas. Na cadeia do Himalaia impera o monte Everest com seus 8.848 metros de altitude.
Em 1953, os alpinistas Edmund Hillary e Tenzing Norgay mal podiam caminhar quando chegaram a 20 metros do cume do Monte Everest. Estavam exaustos, na chamada ‘zona da morte’, onde, acima dos 8 mil metros a pressão atmosférica é de cerca de um terço da pressão ao nível do mar, resultando na disponibilidade de apenas cerca de um terço do oxigênio para respirar. Os efeitos debilitantes da ‘zona da morte’ são tão grandes que é preciso que os escaladores levem até 12 horas para percorrer a distância de pouco mais de 1,5 quilômetros.
Na ‘zona da morte’, o corpo humano não pode aclimatar. Uma estadia de pouco tempo na ‘zona da morte’ sem oxigênio suplementar irá resultar na deterioração das funções corporais, perda de consciência, e, finalmente, a morte. Hillary e Norgay sabiam disso e por isso mesmo usavam máscaras acopladas a um tubo de oxigênio complementar. Sem isso talvez jamais tivessem atingido o cume do Everest pela primeira vez na história. Mas foi exatamente neste dia histórico, 29 de Maio de 1953, em meio à exaustão e a êxtase do triunfo, que os alpinistas observaram um bando de gansos asiáticos cruzarem os céus, bem acima da cabeça deles, voando e conversando como se nada estivesse acontecendo. Sim, isso mesmo, gansos asiáticos, conhecidos cientificamente por Anser indicus.
Os míticos alpinistas Edmund Hillary e Tenzing Norgay em 1953 já felizes e fora da ‘zona da morte’ (note os tubos de oxigênio). Fonte: Wikipedia
Os míticos alpinistas Edmund Hillary e Tenzing Norgay em 1953 já felizes e fora da ‘zona da morte’ (note os tubos de oxigênio). Fonte: Wikipedia
O ganso asiático é uma ave de grande porte que se reproduz na Ásia Central em colônias de milhares de indivíduos perto de lagos de montanhas e migra para o sul da Ásia, até o sul da península da Índia, onde passam seu ‘inverno’. Isso significa que estes gansos atravessam o Himalaia pelo menos duas vezes por ano. Como eles conseguem sobreviver no ar rarefeito é uma das mais importantes questões da biologia.
Como os gansos respiram no ar rarefeito? Uma das grandes questões científicas.
Como os gansos respiram no ar rarefeito? Uma das grandes questões científicas.
Para uma ave voar em altitudes elevadas ela precisa aumentar a taxa de batimentos cardíacos o que aumenta os custos metabólicos dos gansos. A capacidade destas aves de sustentar as altas demandas de oxigênio durante o voo em um ar que é extremamente rarefeito depende da fisiologia cardiorrespiratória única das aves, juntamente com várias especializações que evoluíram para o transporte de oxigênio3.
A tolerância excepcional a hipoxia em aves é provavelmente o mais importante fator responsável pelo voo em ar rarefeito. Mesmo pardais comuns conseguem suportar a falta de oxigênio quando foram estimulados a voar em túneis com ar que mimetizava 6 mil metros de altitude. As aves são muito mais tolerantes a hipoxia do que os mamíferos. Muitas características únicas do aparelho respiratório e cardiovascular das aves são os responsáveis por essa tolerância3.
O sistema respiratório das aves é único entre os animais vertebrados atuais. Dois grupos de sacos aéreos, cranial e caudal, ocupam a maior parte da região dorsal do corpo e estende-se em cavidades  em muitos dos ossos (chamadas espaços pneumáticos). Os sacos aéreos são pouco vascularizados e não participam das trocas gasosas, mas são grandes – aproximadamente nove vezes o volume dos pulmões. Os sacos aéreos são espaços por onde o ar flui durante os períodos do ciclo respiratório. Isso cria um fluxo de ar contínuo em um único sentido nos pulmões. Nas aves é possível um fluxo oposto do sangue e do ar, somente porque o ar flui no interior dos pulmões em uma mesma direção durante a inspiração e a exalação. Esse fluxo de ar em sentido único nos pulmões das aves tem muitos benefícios. O fluxo em corrente-cruzada do ar e do sangue permite trocas de gases mais eficientes, semelhante ao fluxo de contracorrente do sangue e da água nas brânquias dos peixes1.
O mais árido deserto, o mais gelado dos climas, a mais alta montanha. Qualquer lugar do planeta onde o homem possa estar terá sido precedido por uma ave. Lembre-se disso.
O maior sucesso do planeta
As aves são os animais mais conspícuos (aos nossos olhos) no mundo moderno. Elas são extremamente diversificadas, com mais de 10.000 espécies existentes distribuídas por todo o planeta, preenchendo uma variedade de nichos ecológicos e uma gama em tamanho desde o diminuto colibri com apenas dois gramas ao gigante avestruz, com seus 140 quilos. Seus corpos emplumados são otimizados para o voo, suas taxas de crescimento e metabólicas se destacam entre os animais vivos, e seus cérebros grandes, sentidos aguçados e habilidades de vocalizar e usar ferramentas as torna organismos inteligentes. Isto suscita uma pergunta fascinante: como esse grupo de animais alcançou tão grande diversidade e tão grande sucesso evolutivo4?
Este é o tema de uma vida de pesquisas e descobertas essenciais para o entendimento de todas as questões filosoficamente importantes: Aristóteles, Lineu, Darwin, Wallace, Watson & Crick, Lorenz, Tinbergen, entre tantos outros que o digam.
Para saber mais
  • Pough, F.H., Janis, C.M e Heiser, J.B. 2003. A Vida dos Vertebrados. Atheneu Editora São Paulo, São Paulo. 4a ed.
  • Williams, T.D. 1995. The Penguins. Oxford University Press.
  • Scott, G.R. et al. 2015. How Bar-Headed Geese fly over the Himalayas. Physiology 30:107-115.
  • Brusatte, S.L. et al. 2015. The origins and diversification of birds. Current Biology Review 25.

*Este artigo foi publicado originalmente no blog Vida das Aves e republicado em O Eco. logo21